Trechos de “O Absurdo da Agricultura” de José Lutzenberger

“A Segunda Guerra Mundial deu um grande empurrão para uma pequena e quase insignificante indústria de pesticidas e, realmente, projetou-a para uma produção em grande escala. Hoje, o equivalente a centenas de bilhões de dólares em venenos é espalhado nas terras de todo o Planeta.

Durante a Primeira Guerra Mundial gás venenoso, como arma tóxica, foi usado apenas uma vez, com efeitos devastadores para ambos os lados, levando à sua total proibição. Durante a Segunda Guerra Mundial, gases não foram utilizados em batalha, mas muitas pesquisas foram desenvolvidas. A Bayer, entre outras empresas, estava neste jogo, desenvolvendo os ésteres do ácido fosfórico. Depois da guerra essas empresas tiveram grande capacidade de produção e de estoques, e concluíram que o que mata gente também mata insetos. Fizeram novas fórmulas e as comercializaram como inseticida.

O DDT era conhecido como uma curiosidade de laboratório, quando Muller, na Geisy, descobriu que o produto matava insetos sem, aparentemente, afetar pessoas. Comunicou o fato ao exército dos EUA que, nesse momento, sofria com a malária no Pacífico, enquanto lutava contra os japoneses. Usaram-no de forma totalmente descuidada. Convencidos de que era inofensivo, o espalharam sobre paisagens inteiras e até dentro de casas e sob a vestimenta das pessoas. Pouco antes do fim da guerra, um cargueiro estadunidense estava a caminho de Manila com uma carga de potentes fitocidas (biocidas que matam plantas) do grupo 2,4-D e 2,4,5-T. A intenção era matar de fome os japoneses, destruindo suas colheitas mediante a pulverização do veneno desde o ar. Tarde demais. O barco recebeu ordem de voltar, antes mesmo de chegar. Os EUA tinham acabado de jogar as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Mesma história: grande capacidade de produção, enormes estoques sem compradores. A substância foi reformulada como “herbicida” e descarregada nos agricultores. Depois, durante a Guerra do Vietnã, as forças armadas estadunidenses impiedosamente espalharam o que eles chamaram de “Agente Laranja” (e outras cores) sobre milhões de hectares de floresta tropical, pretendendo que fosse somente um desfolhante para tornar visíveis as forças inimigas. De fato, estas formulações continham grandes concentrações de 2,4,5-T que destruíam totalmente as florestas.

A indústria, querendo preservar em tempo de paz o que tinha sido um grande negócio em tempo de guerra, conseguiu dominar quase completamente a pesquisa agrícola, redirecionando-a para seus próprios objetivos. Conseguiu cooptar a pesquisa e a extensão agrícola oficial, assim como as escolas. Fazendo lobby a favor de legislação ou regulamentação adequadas e criando esquemas bancários de crédito fácil, colocaram o agricultor numa posição na qual dificilmente sobravam outras alternativas.

Atualmente, o paradigma agroquímico é aceito quase sem questionamento nas escolas agrícolas, na pesquisa e na extensão. Os agricultores, em sua maioria, acreditam nele e, freqüentemente, quando marginalizados, culpam a si mesmos por sua incapacidade para competir.

Tudo isso veio a existir não como uma conspiração deliberada por pessoas de mentes diabólicas, mas desenvolveu-se e estruturou-se de oportunismo em oportunismo. À medida que uma nova técnica, processo ou regulamentação dava vantagem a alguém ou a alguma instituição, a respectiva tecnologia era promovida e ideologicamente consolidada. Alternativas que não se encaixavam com as crescentes estruturas de poder eram combatidas, ignoradas ou desmoralizadas.

Agora sim, no caso da implementação da biotecnologia na agricultura, controlada por grandes corporações transnacionais, parece que temos uma verdadeira conspiração e que os danos serão mais irreversíveis do que os sofridos até então. O principal problema aqui não é tanto se nossos alimentos se tornarão de qualidade inferior e até nocivos – apesar de que isso possa vir a ocorrer – mas, novamente, trata-se de adicionar mais estruturas de dependência e dominação sobre os agricultores que ainda restam e impor uma limitação de escolhas para o consumidor.

A fantástica diversidade de cultivares que tínhamos, e ainda temos hoje, depois das tremendas perdas causadas pela ‘Revolução Verde’ durante as últimas décadas, é o resultado da seleção, consciente e inconsciente, por parte dos camponeses ao longo dos séculos. Pensemos somente na família das crucíferas – repolho, couve chinesa, rabanete, nabo, mostarda, couve-flor, brócolis, colza, entre muitas outras. Nenhum destes agricultores jamais solicitou patentes, registro ou certificação.

Agora, indústrias como a Monsanto querem que aceitemos sua manipulação desta riqueza preexistente, como a soja Roundupready, com o argumento de que elas apenas estão dando prosseguimento e acelerando este processo, contribuindo assim para a solução dos problemas alimentícios da Humanidade. Insistem em que não há outra saída, mas sabem muito bem que existem outras alternativas, melhores, mais saudáveis e mais baratas.

É de conhecimento geral que a agricultura deve encontrar caminhos para se afastar dos venenos. Possuímos todos os conhecimentos necessários. Milhares de agricultores orgânicos em todo o mundo são prova disto.

Com cultivares resistentes e herbicidas, a indústria quer vender pacotes: semente + herbicida, obrigando o agricultor a usar produtos químicos – mesmo que não necessite – e a utilizar o herbicida da própria empresa.”

Trecho do texto “O Absurdo da Agricultura”, de José Lutzenberger.

Texto completo: http://www.agrolink.com.br/downloads/80712.pdf

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