“Cuidar dos espaços” (do livro “Normose”)

“Chama-me particularmente a atenção um dado que estima que, se seguirmos esse modo de produção e os modos de relação do ser humano com a terra, 80% da humanidade, até 2020, estará assentada em centros urbanos. Esse é um grande desafio a encarar e, na qualidade de arquiteta e urbanista, é uma perspectiva que gera em mim profunda inquietação: é preciso começar a pensar um novo paradigma para a forma de morar, de habitar, de circular, de viver coletivamente.

Para os cidadãos, é o convite a uma participação cada vez mais comprometida com o uso do espaço e os seus desdobramentos. O modelo de assentamento que hoje se nos apresenta é perverso e excludente de uma qualidade de vida social, ambiental, e esse fato não diz respeito só àqueles que moram nas periferias, embora sejam suas maiores vítimas: todos estão sentindo os reflexos da violência, da falta de qualidade do ar, cada vez mais poluído, das águas e rios sendo invadidos por espumas, detergentes, esgotos e lixo.

A forma como os assentamentos humanos acontecem é o reflexo dessa percepção desconectada com os outros ecossistemas: desmatamos quilômetros para fazer ruas, calçadas e quadras, para depois plantar de novo outras árvores e plantas, a maioria exótica aos ecossistemas locais, numa total desmemorização de que ali há uma cidade para abelhas, borboletas, minhocas, besouros, etc...

Nossa visão antropocêntrica e desconectada desconsidera esses valores sagrados, em nome de outros valores e de outros pressupostos completamente normóticos. Que espaços estaremos legando as futuras gerações?

Esse é um Desafio enorme, a meu ver, para nós que nos esforçamos por despertar desse estranho sono: a expansão de nossos valores para além de um modo de pensar e agir imediatista e consumista. Esse modelo consumista que nos impomos viver é diretamente responsável por toda uma atitude de desconexão com as nossas próprias necessidades e gerador de todo tipo de lixo.”

Trecho da reflexão sobre a normose ambiental de Regina Fittipaldi, copiado do livro “Normose — A patologia da normalidade”, páginas 118 e 119.

…passagens e meios… veja mais em https://medium.com/ormando

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