“…o mundo se especializou de tal modo que as pessoas se tornaram incapazes de apreender integralmente o que quer que seja.

Por exemplo, um perito e prevenção dos estragos provocados pelos insetos, do Centro de Ensaio da Prefeitura de Kochi, veio até aqui para investigar o fato de haver tão poucos pulgões nos meus campos embora eu não use insecticida. Após investigações sobre a área do habitat, o equilíbrio entre os insetos e os seus inimigos naturais, a velocidade de multiplicação da aranha, etc., descobriu que o pulgão era tão raro nos meus campos como nos do Centro, que são irrigados com venenos mortais um número incontável de vezes.

O Professor ficou igualmente surpreendido ao constatar que, ao mesmo tempo que havia poucos insetos nocivos, os seus predadores naturais eram muito mais numerosos nos meus campos do que nos campos irrigados. Depois fez-se luz no seu espírito e descobriu que os campos mantinham-se neste estado graças a um equilíbrio natural estabelecido entre as diversas comunidades de insetos. Reconheceu que se o meu método fosse adotado na generalidade o problema da destruição das colheitas pelo pulgão podia ser resolvido. Depois entrou na sua viatura e regressou a Kochi.

Mas se me perguntarem se especialistas em fertilidade do solo, ou em colheitas, vindos do centro de ensaio aqui estiveram ou não, a resposta é não, não estiveram. E se alguém sugerisse numa conferência ou numa reunião que este método, ou antes, este não-método, fosse experimentado em grande escala, adivinho a resposta da Prefeitura ou do centro de ensaio: 'Lamentamos imenso, mas é cedo demais. Antes de lhe darmos a aprovação final, precisamos de fazer pesquisas definitivas sob todos os ângulos possíveis'! Uma conclusão levaria anos a chegar.

Este tipo de coisa está sempre a acontecer. Vieram até esta quinta especialistas e técnicos de todo o Japão. Observando os campos do ponto de vista da sua própria especialidade, cada um destes investigadores achou-os se não notáveis, pelo menos satisfatórios. Mas desde que o Professor da estação de pesquisa nos visitou há 5 ou 6 anos, poucas mudanças houve na Prefeitura de Kochi.

Este ano, o departamento agrícola de Kinki formou uma equipa pluridisciplinar para um projeto de agricultura selvagem no âmbito do qual alunos virão até aqui fazer investigações. Esta aproximação pode significar um passo em frente, mas tenho a impressão que o próximo movimento será dois passos para trás.

Por vezes, pretensos peritos comentam: 'A ideia base do método é boa, mas não seria melhor ceifar à máquina?', ou 'O rendimento não seria superior se usasse fertilizante ou pesticida em certos casos ou em certas ocasiões?' Há sempre quem tente misturar a agricultura selvagem e a científica, mas esta maneira de pensar erra completamente o alvo. O agricultor que se encaminha para o compromisso deixa de poder criticar a ciência ao nível dos princípios.

A agricultura selvagem é suave e fácil e exige um retorno à origem da agricultura. Um único passo que se afaste da origem só pode ser um passo extraviado.

(…)

Os sábios pensam que são capazes de compreender a Natureza. É a posição que assumem. Porque estão convencidos de que podem compreender a Natureza, confiamos-lhes o seu estudo e a sua exploração. Contudo, penso que a compreensão da Natureza ultrapassa o alcance da inteligência humana.

Costumo dizer aos jovens que vivem nas cabanas da montanha, que vêm até aqui para dar uma ajuda e aprender a agricultura selvagem, que toda a gente pode ver as árvores na montanha. Podemos ver o verde das folhas; podemos ver os pés de arroz. Cada um pensa que sabe o que é o verde. Contactando dia e noite com a Natureza, chegamos por vezes a pensar que conhecemos a Natureza. Mas quando pensamos que começamos a compreender a Natureza, podemos estar seguros de que estamos no mau caminho.

Por que razão é impossível conhecer a Natureza? Aquilo que confiemos como sendo a Natureza não passa da ideia de Natureza que emana da inteligência de cada um.

Quem vê a verdadeira Natureza são as crianças. Elas vêem sem pensar, de forma nítida e clara. Mas a partir do momento em que ficam a conhecer nem que seja o nome das plantas, uma tangerineira da família dos citrinos, um pinheiro da família dos pinheiros, deixam de ver a Natureza na sua verdadeira forma.

Um objecto visto isoladamente do todo não é o ser verdadeiro.

Especialistas em áreas diferentes reúnem-se e observam um pé de arroz. O especialista em doenças causadas pelos insetos vê apenas os estragos causados pelos insetos, o especialista em nutrição das plantas considera apenas a robustez das plantas. No estado em que as coisas estão, este tipo de atitude é inevitável.

Eis um exemplo: disse àquele senhor da estação de pesquisa, quando ele estudou a relação entre os pulgões do arroz e as aranhas nos meus campos: ‘Professor, ao estudar as aranhas está a interessar-se apenas por um dos muitos predadores naturais do pulgão. Este ano as aranhas apareceram em grande número, mas no ano passado foram os sapos. Antes disso, foram as rãs que predominavam. Há inúmeras variações’.

Para a investigação especializada, é impossível perceber o papel de um determinado predador numa certa época, no âmbito da complexidade das relações entre os insectos. Há estações em que a população de pulgões é reduzida porque há muitas aranhas. Há épocas em que chove muito e as rãs fazem desaparecer as aranhas, ou então chove tão pouco que nem os pulgões nem as rãs aparecem.

Os métodos de controle dos insetos que ignoram as relações entre os próprios insetos são completamente inúteis. A pesquisa sobre as aranhas e os pulgões deve considerar também a relação entre aranhas e rãs. Quando as coisas chegam a este ponto, um professor especialista na rã torna-se igualmente necessário. Especialistas na aranha e no pulgão, um outro em arroz e um em irrigação deverão juntar-se ao grupo.

Além disso, nestes campos há quatro ou cinco espécies diferentes de aranhas. Lembro-me que um dia de manhã cedo, aqui há uns anos, alguém entrou precipitadamente na casa para me perguntar se eu tinha coberto os campos com uma rede de seda, ou algo desse gênero. Não fazendo ideia do que se tratava, saí para o campo com o fim de dar uma olhada.

Tínhamos acabado de ceifar o arroz, e durante a noite o restolho do arroz e as ervas que aí cresciam tinham sido completamente recobertos por teias de aranha que pareciam seda. Ondulando e cintilando com a brisa matinal, proporcionavam um espectáculo soberbo.

O prodigioso, quando isto acontece, o que é raro, é que dura apenas um dia ou dois. Se olharmos de perto, verificamos que há diversas aranhas por centímetro quadrado. Estão tão juntas no campo que quase não há espaço entre elas. Num acre deve haver não sei quantos milhares, ou milhões. Quando se vem observar o campo um ou dois dias mais tarde, repara-se que fios de vários metros de comprido se partiram e ondulam ao vento com cinco ou seis aranhas agarradas umas às outras. É como quando a penugem dos dente-de-leão ou as sementes das pinhas são levadas pelo vento. As jovens aranhas agarram-se aos fios e são levadas a voar pelo céu.

Este espetáculo á um drama natural assombroso. Vendo-o, compreendemos que os poetas e os artistas deverão juntar-se também ao grupo. Quando se utilizam produtos químicos num campo, tudo isto é destruído instantaneamente.

Um dia, pensando que não faria mal, espalhei as cinzas da lareira nos campos (*O Sr. Fukuoka composta a suas cinzas de madeira e outros detritos orgânicos. Aplica este composto à sua pequena horta.). O resultado foi tenebroso. Dois ou três dias mais tarde, o campo tinha sido completamente esvaziado das suas aranhas. As cinzas tinham provocado a desintegração dos fios das teias de aranha. Quantos milhares de aranhas tombaram vítimas de um único punhado desta cinza aparentemente inofensiva? Aplicar um inseticida não resulta apenas na eliminação dos pulgões juntamente com os seus predadores naturais; afeta também uma série de outros dramas capitais da Natureza.

Ainda não percebemos o fenômeno destes grandes enxames de aranhas que aparecem nos campos de arroz no Outono, e que, como mestres da evasão, se desvanecem durante a noite. Ninguém sabe de onde vêm, como passam o Inverno e para onde vão quando desaparecem.

É por isso que a utilização de produtos químicos não é um problema apenas do entomólogo. Os filósofos, os religiosos, os artistas e os poetas devem também ajudar a decidir se é ou não admissível a utilização de produtos químicos na agricultura, e quais podem ser as consequências da utilização de fertilizantes, mesmo orgânicos. “

(Masanobu Fukuoka em “A Revolução de uma Palha”, páginas 25 a 30)

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